Entrevista pelo Nego Mário – Banca Somos 1 Só

Mari Campos, mc, produtora cultural, mãe, artista de rua…

Muitas denominações para um corre múltiplo com apenas um fim: levar a mensagem libertária e feminista por onde quer que vá.

Inicia seus passos com vertentes no punk e no anarquismo, mas logo nasce uma forte identificação com o movimento Hip Hop, por suas origens e reivindicações, tão necessárias e combativas. Depois de muito envolvimento em movimentos sociais, coletivos, bandas e outras formas de organização e luta, Mari sentiu a necessidade de se expressar mais diretamente com sua realidade e a do outro.

Já integrante do movimento hip hop, nasce o primeiro grupo Visão Feminina onde contava com a parceria de outra mana mandando as rimas. Seguia uma linha de rap contundente, direta e panfletária com influências dos primeiros grupos de rap da cena nacional como Dina Di, Facção Central, Realidade Cruel, rolaram shows em algumas cidades do RS e SP. Junto com o Visão, participou do vol. 1 e 2 da coletânea de rap gaúcho Junção das Gurias, trabalho consolidado com shows de lançamento e muitas cópias do cd físico rolando de mão em mão pelas ruas Brasil a fora.

Com o término do grupo, Mari passa a correr seu trampo solo, denominado Projeto Sufoco. Um som mais poético e existencial, autobiográfico, mas nunca perdendo suas raízes de luta e protesto social. Em 2017 lança o videoclipe de seu primeiro single SUFOCO de forma totalmente independente.  A partir daí a visibilidade de seu corre aumenta e começam a surgir novas conexões.

Passa a fazer parte do coletivo e selo LUTE Corp. com outros manos da sua cidade natal Caxias do Sul/RS. Ideias em comum e fortalecimento colaborativo em prol de um rap underground subversivo. Assim nasce o trabalho coletivo Cypher Lute Sempre, com os manos da banca.

Seguindo na caminhada organizando eventos, saraus e recebendo mais convites pra se apresentar em outras cidades, começa a fazer parte da Banca Rap4Love, uma junção de mulheres de várias cidades do RS e SC que tem o intuito de fortalecer o protagonismo feminino dentro da cena.

Dessa união surgiram outros trabalhos e convites como a parceria com a rapper Dany Alves no single Correr a Vida Só e União Femininacom Lisy de Souza. Recentemente participou da cypher intitulada Sete Bruxas onde coloca suas ideias em prática junto com outras seis manas da Banca Rap4Love.

As atividades não param, vários corres já estão engatilhados e prestes a serem lançados. Muita coisa tem que ainda ser dita pelas mulheres nessa sociedade que ainda tem preconceitos e conceitos distorcidos enraizados em sua cultura de massa. Seguindo na luta anticapitalista, feminista e pelo poder de transformação social que o Hip Hop tem. Tem que ter coragem pra passar pelo sufoco e colher os frutos do que plantamos no nosso dia a dia.

Links:

Canal do youtube:

https://www.youtube.com/channel/UCUkl0Ctd9xEQAPrk5-JzrnA

Junção das Gurias – https://soundcloud.com/juncaodasguriasrs

Correr a Vida Só – https://www.youtube.com/watch?v=50BFvDMoyic

União Feminina – https://www.youtube.com/watch?v=ORGbirCxArU

Cypher Lute Sempre – https://www.youtube.com/watch?v=96zauo4Ov9U

Cypher Sete Bruxas – https://www.youtube.com/watch?v=cHfPf1U0vs0

1-COMEÇE SE APRESENTANDO?
Salve! Mari Campos MC, rapper de Caxias do Sul – RS. Satisfação mesmo pelo convite pra entrevista!

2 – QUAL E A SUA PRINCIPAL FONTE DE INSPIRAÇÃO?
Minha inspiração sempre surge das ruas, arte e cultura de onde venho e onde construí meu estilo. Aprendi a buscar informação pra formar a ideologia que carrego pra minha vida, o anarquismo, o feminismo e a esperança de mudanças na sociedade em que vivemos através da literatura e da música.

3 – QUAIS TIPOS DE TEMAS QUE COSTUMA ABORDAR NAS LETRAS DA SUAS MUSICAS?
O meu som traz uma bagagem bastante autobiográfica, de opinião e crítica. Gosto de uma levada mais poética e existencial, mas sempre abordando temas que, na minha opinião são mais que necessários. Como mulher, me identifico com a causa feminista e falo bastante disso nas minhas letras também. Mas procuro sempre apontar soluções e caminhos pra não trazer um discurso vazio e negativo, apesar de a realidade não ser tão positiva assim.

4 – QUAL O PRIMEIRO CONTATO QUE VOÇE TEVE COM O MUNDO DO HIP HOP?
Meus primeiros contatos foram na minha cidade mesmo, em eventos de rua, conhecendo as pessoas envolvidas na cena e depois correndo atrás do som, que foi o elemento com o qual mais me identifiquei. Venho de uma vivência punk e pra mim esses dois movimentos sempre tiveram muito a ver no que se refere à subversão e contestação e origem. Por outro lado, em ambos os movimentos, ainda sentia um ambiente muito masculino e opressor para as mulheres. Me senti na “obrigação” de tomar alguma atitude quanto a isso. Vi que outras manas também sentiam o mesmo, então formamos um coletivo de mulheres dentro do movimento Hip Hop da cidade que nos deu muitos frutos e fortaleceu realmente o protagonismo feminino. Inclusive foi a partir daí que formamos o grupo Visão Feminina, meu primeiro contato com palcos de rap, não como plateia, e sim com o mic na mão.

5 – COMO É SER UMA MULHER NO MEIO DO HIP HOP?
Ainda encontramos muitos obstáculos que nos invisibilizam e restringem as nossas ações. Temos um grande problema que é a falta de mulheres em todas as áreas que envolvem a produção musical. Mas hoje conseguimos colher muitos frutos que grandes mulheres semearam na história do movimento. Tem muita mina fazendo frente, organizada e a qualidade dos trabalhos vem ficando evidente. Estamos aí justamente pra mudar esse quadro e quebrar paradigmas ultrapassados que engessam a arte.

6- O QUE VOÇÊ ACHA QUE ESTÁ FALTANDO OU QUE PODE SER ACRECENTAR NO RAP NACIONAL ATUALMENTE?
Acho que falta um pouco de conhecimento por parte de algumas correntes musicais, vejo a história do movimento como um todo sendo esquecida. Há uma grande cooptação da mídia e do Estado em torno de nós. Acredito que tem espaço pra todos os estilos, mas não devemos esquecer o porquê de estarmos aqui. E a responsabilidade social que o mc tem quando se coloca na posição de comunicador e formador de opinião. Tem formas artisticamente muito mais criativas de se fazer rap do que simplesmente reproduzir o senso comum. Tem muita gente boa fazendo isso Brasil a fora. Além disso, vejo muita dificuldade de alcance e divulgação dos trabalhos da galera que não faz parte do eixo Rio-São Paulo. Estamos num processo…

7 – FALE UM POUCO DESTA CONEXÃO COM A BANCA RAP4 LOVE?
Rap4Love é uma rede colaborativa de conexão entre mulheres do RS e algumas que residem em SC também. Uma forma que encontramos de nos fortalecer e viabilizar a concretização dos nossos trabalhos. Uma rede de trocas, de vivência, amizade e arte. Já somos muitas, as manas se identificam e naturalmente se envolvem. Já esta nos rendendo bons frutos, contatos, shows, trabalhos novos, cada uma acrescenta o conhecimento que tem pra que as coisas aconteçam de fato. Sou muito grata por fazer parte dessa caminhada.

8 – SEGUNDO SEU PONTO DE VISTA ! QUAL O PAPEL DO RAP NA SOCIEDADE?
Pra mim, o rap surgiu com esse pensamento e continua sendo uma ferramenta de transformação social. Ser mc é mais do que show, é um ato político, de reivindicação e expressão muito forte. Através do nosso som, podemos nos fazer ser ouvidos, dizer o que pensamos. O rap me leva a lugares que jamais sonhei estar, seja na minha casa dentro dos meus pensamentos, ou pelo mundo disseminando a mensagem. O rap tem muito poder, a partir do momento em que o artista toma consciência disso, um mundo de possibilidades se abre.

9 – PARA FINALIZAR COMO DE PRAXE DEIXE UMA MENSAGEM UM SALVE PARA QUEM VC QUISER E PARA QUEM QUISER ACOMPANHAR SEU TRABALHO?
Agradeço mais uma vez pelo convite e queria deixar um salve pra todas as mulheres que tentam ir contra a corrente e se posicionar diante das injustiças dessa sociedade machista e capitalista. Banca LUTE Corp., meus manos daqui da minha cidade e também as manas do Rap4Love. Seguimos na luta até que tod@s sejam@s livres!!!! A leitura é importante! Paz.

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